terça-feira, 24 de março de 2015

O dia do terapeuta

Ja já estava quase na hora de sua consulta. A sua arma estava em sua bolsa, carregada. Sabia que o que precisava era de sossego, era de paz. E que, mais poderia lhe ajudar sem ser o seu terapeuta? A arma nesse tempo, nessa era, tinha lá sua importância única por ser uma relíquia deixada por seus avós. E até então nunca tinha sido usada. 
Um momento de ansiedade: o elevador não vinha e apesar de sua consulta ser muito mais tarde do que aquelas horas que o relógio mostrava, parecia atrasado. Foi de escada mesmo. Para perder tempo. 
Quantos minutos se passaram na sala de espera não podia ser contados. Não por alguém que carregava uma arma na bolsa. Cada gota de suor que descia, fazia - o lembrar da péssima e não única má escolha de não ter esperado o elevador. Encharcava a sala de espera com sua ansiedade. Fedia a desgraça. 
Sua vez finalmente. Entrou, como se não estivesse nada mal. Sentou-se como uma pessoa que quer parecer normal:
- Bom dia Doutor. Ao senhor que sempre me ajudou, quero deixar minhas sobras, faaça uma pintura onde agora meu sangue se espalha. 
O terapeuta não teve reação. Quem teria? Um estalo foi o suficiente para aquela arma retirada tão rápido de dentro de uma bolsa de mão espalhar pela parede restos de um corpo que antes pensava. Para o doutor, rápido demais. Para o paciente?
Quando a bala adentrou pulverizando o céu da sua boca e acertando o cérebro, gerou um calor insuportável, que ativou áreas do cérebro antes nunca ativas. Em uma fração de segundo, conseguiu ativar 100% da capacidade cerebral e o tempo passou a ter outro significado. O momento que se passava entre a vida e a morte, agora parecia ser suficiente para a evolução humana na terra. Uma fração de segundo se tornou uma década ou mais. Não para os outros é claro, mas para sua própria cabeça. O seu raciocínio avançou tão rápido que conseguiu desvendar os mistérios da vida antes de se tornar um completo corpo sem vida. Mas ficava a única dúvida: o que eu faço?
Sabia que a bala iria atravessar o resto de sua cabeça. Aprendeu então a voltar no tempo, mas sabia que se voltasse no tempo perderia a capacidade de acessar 100% o cérebro. Sabia que se morresse todos os mistérios da vida continuariam sendo mistérios da vida. Não tinha solução, todo conhecimento humano estava fadado a não ser desvendado? Queria transmitir telepaticamente o que sabia para o seu terapeuta, mas apesar de enviar as informações, o médico não conseguia assimilar, era como jogar uma bola no muro e esperar que o muro a agarrasse antes de cair ao chão. Impossível. 
Nao podia partir sem deixar todo aquele conhecimento para trás. Talvez se entrasse em coma reorganizando os tecidos ainda não afetados fosse uma opção. Mas o coma duraria no mínimo, segundo as contas inexplicáveis até mesmo para mim, 159 anos e 12 dias. E a chance dele sobreviver ele essa época era de improváveis 0,074%. Compartilhar o que aprendia em tempo recorde parecia necessidade. Sabe quando uma criança aprende a andar de bicicleta pela primeira vez? " Olha mãe o que eu sei fazer". Não tinha ninguém olhando.  
...

Mais 15, 20 minutos passaram. A consulta hoje seria mais rápida do que o usual, estava tão bem consigo mesmo que o que o seu terapeuta falasse não adiantaria muita coisa. A realidade parecia distante. Um suspiro antes de assentar. 
- Que quadro bonito. Não me lembro de o ter visto a última vez que estive aqui doutor. 
Uma obra de arte logo a cima do sofá, viva, vermelha, insignificante. 

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